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Condessa de Melo

Condessa de Melo

26
Mar24

Visita Presencial ao Teatro de Santa Isabel

Rafaela da Silva Melo

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No dia 30 de janeiro, fiz uma visita presencial ao Teatro de Santa Isabel, que todos os anos apresenta um repertório para todos os gostos e gêneros, tais como peças teatrais, musicais, espetáculos de dança, concertos, etc.

O Teatro de Santa Isabel está localizado na Praça da República, no Bairro de Santo Antônio. É um raro exemplo de genuína arquitetura neoclássica da primeira metade do século XIX brasileiro.

Foi nomeado em homenagem a Princesa Isabel.

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Minha visita foi guiada por uma funcionária do Teatro e durou duas horas. Pude conhecer a parte interna e externa do teatro. No dia da visita algumas partes do teatro estavam em manutenção.

Foi uma tarde muito produtiva!

29
Out20

Das memórias do 4.º Conde de Mafra

Rafaela da Silva Melo

Um texto raro e muito importante para mim. Obrigada por me enviar!

Médico de D. Carlos I, o professor D. Tomás de Melo Breyner descreve nos dois volumes de memórias publicados a época da sua juventude, durante o reinado de D. Luís I. Neste trecho descreve o início da temporada de ópera no Teatro de São Carlos.

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                                                                    Teatro de São Carlos

[ABERTURA DA TEMPORADA LÍRICA em 29 de Outubro de 1878.]

O dia de anos D'el-rei D. Fernando era havia muito tempo a data escolhida para a inauguração da época lírica no Teatro de S. Carlos com uma récita de gala.

E que belo espectáculo era uma dessas récitas!. Vi-o pela 1.ª vez nesse ano.

Enchente à cunha nos camarotes e plateias.

Nesse tempo havia a plateia superior à frente e a geral atrás. Um lugar para a primeira custava um quartinho ou fossem 1.200 réis antigos, para a segunda sete tostões.

À entrada da Família Real a orquestra tocava o hino e todas as senhoras e homens se punham de pé sem exceptuar o Latino Coelho sempre bem educado. Por isso lhe chamavam jacobino da Real Câmara.

Os músicos, menos os tocadores de violoncelo, erguiam-se. O regente, de casaca, fazia frente à retaguarda e ficava de braços caídos. O hino nacional não precisava dirigido.

O chamado rabecão-guia, nesse tempo a cargo do notável contra-pontista Cunha e Silva e colocado junto ao Maestro, até esse se virava para o camarote real voltando as costas aos executantes, porque o hino da carta e o hino privativo D'el-rei D. Luís - tocavam-se ambos - não careciam de ser guiados.

Mal acabava de soar o último compasso o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa de casaca e faixa azul e branca assentando sobre uma barriga tremenda, erguia o chapéu para dar vivas correspondidos por toda a gente. (1)

Começava depois o espectáculo.

No camarote de gala as Pessoas Reais sentadas. tinham por detrás de cada poltrona um dignitário de pé. Lembro-me de ver meu Pai de farda chamada rica e grã-cruz, também de pé é com as mãos encostadas ás costas da cadeira real.

No camarote real dos dias simples estavam as damas da Rainha com os tais vestidos chamados. fardas. Em frente a Senhora Condessa de Edla num camarote propriedade do Augusto Esposo. (2)

Não era costume aparecerem os rapazotes e muito menos os rapazinhos nas récitas de gala, consideradas cerimónias da Corte e especialmente nas duas primeiras ordens de camarotes. O aparecimento dum menino era um escândalo, quase um crime de lesa etiqueta, mas o Daupias, não se importava com isso e levava-me para sua frisa n.º 10. Meu Pai fechava os olhos, mas quando os abria gostava de me ver.

Num intervalo não resisti à tentação de ir ao corredor da 1.ª ordem espreitar para o salão traseiro ao camarote grande, mas veio de lá um áulico de fardalhão e comendas, indignado - e com razão - de me ver ali e mandou-me embora. Como eu recalcitrasse ameaçou-me com um puxão de orelhas.

Fez bem em não realizar a ameaça porque teria levado um pontapé numa canela. Era a minha defesa quando os mais fortes me agrediam e foi-me ensinada pelo guarda-portão Bernardo que não se cansava de me repetir: «um bom pontapé nas canelas deixa marca para sempre».

Pelo que me lembra e por aquilo que tenho ouvido dizer, fui com certeza um menino por vezes desagradável, mas havia no entanto quem me quisesse bem.

E não guardo o menor rancor aos que comigo implicaram e por vezes tão rudemente...

«Perdono á tutti» como o Rigoleto. O que não posso é esquecer porque ainda não morri nem tão pouco tenho por enquanto os miolos inteiramente amolecidos.

*

* *

A etiqueta mandava que nas récitas de gala não houvesse manifestações de agrado ou desagrado – nem palmas nem pateada.

Por isso aos artistas agradava o debute nessas noites. Temiam o público de Lisboa famoso em apreciações manifestadas com os pés.

A notabilíssima cantora Borghi Mamo impôs uma vez a sua estreia em S. Carlos numa noite de gala com medo das botas e sapatos dos entendedores lisboetas.

Chegou a haver no nosso teatro lírico verdadeiras batalhas degenerando em pancadaria rija corpo a corpo.

No tempo da contralto Pasqua e da soprano De Réske, ambas elas notabilíssimas artistas, deram-se na plateia refregas de bordoada com intervenção da polícia, porque os admiradores duma pateavam a outra. Numa dessas refregas foi derrubado e moído com pisadelas o tranquilo Conde de Mesquitela (mais tarde Duque de Albuquerque) que nada tinha com o caso e era já um velho por sinal bondoso e pacífico.

(1) José Gregório da Rosa Araújo se chamou o popular e benemérito presidente da Câmara Municipal de Lisboa nessa época.

Era filho de Manuel José da Silva Araújo, natural de Famalicão e de D. Eulália Rosa da Silva (lisbonense).

Foi ele quem teve a ideia de substituir o Passeio Publico pela actual Avenida da Liberdade, mas parece que aos alfacinhas lhes deu de repente um ataque de saudades do velho recinto gradeado, de belas sombras e recordações, chegando a haver protestos e até motins contra o inteligente projecto. Foi necessário a guarda municipal proteger os operários que principiaram a demolição das grades em 24 de Agosto de 1879. O próprio Presidente teve de ir para casa escoltado pela cavalaria. Os trabalhos foram dirigidos pelo engenheiro António Maria de Avelar.

O primeiro enterro que teve licença de passar pelo centro da Avenida da Liberdade foi o do próprio José Gregório da Rosa Araújo (Janeiro de 1893).

Os candeeiros da iluminação pública estavam todos cobertos de crepe.

Rosa Araújo, disforme no físico, era todavia, o dono dum formoso coração e duma alma bem formada.

Mãos largas para tudo e para todos, deu cabo duma boa fortuna com a maldita politica e com a prática do bem.

Foi dedicadíssimo a El-Rei D. Luís que muito o distinguiu. Tenho notícia de correspondência curiosíssima entre o Poder Moderador e o presidente do Município.

O pai de Rosa Araújo fundou em 1840 na então travessa de São Nicolau, hoje rua, uma confeitaria que passados anos se mudava para defronte, onde está ainda hoje e com o mesmo nome.

Era da porta dessa confeitaria que o velho Araújo chamava os rapazinhos para lhes dar um rebuçado dizendo-lhes: «toma lá um cócó».

Daí lhe veio a alcunha que passou para o filho benemérito e para uns pastéis de ovos envolvidos em massa folhada papirácia.

Durante muitos anos os famosos e deliciosos pastéis de ovos, vulgo pastéis de cocó, foram exclusivo da confeitaria, Rosa Araújo mas hoje fazem-se em varias casas de Lisboa e numa do Porto.

Até os há em Madrid iguais aos de cá. Falo-os um pasteleiro português chamado Martinho e aos pastéis chamam-lhes lá Glorias de Portugal.

Estas informações e outras ainda mais interessantes, mas de carácter privado, me foram dadas pelo meu velho e bom amigo Isidro Mendes da Silva que durante muitos anos foi empregado, e amigo dedicado dos Araújo pai e filhos e por fim proprietário da casa. 

(2) Este camarote é no fim de contas uma tribuna grande (ocupando o espaço de dois camarotes) que duma residência particular, encravada no edifício, deita para a sala da Ópera.

Por detrás dessa tribuna há duas salas e mais quartos com janelas para o ar livre e uma escada de pedra conduzindo a um vasto rés-do-chão com portão para a rua Serpa Pinto e onde podem recolher carros.

O camarote com os anexos pertenceu primitivamente à família Quintela e por morte do Conde de Farrobo, membro dessa família, foi comprado por El-Rei D. Fernando que o deixou a sua Esposa. Esta Senhora vendeu-o à Senhora Condessa de Penha Longa, passando por morte desta para seu sobrinho e herdeiro o actual Visconde dos Olivais, meu velho amigo e também avó dalguns dos meus netos.

Actualmente o camarote grande está dividido em dois pequenos. 

Fonte:
Tomás de Melo Breyner,
Memórias do Professor Thomaz de Mello Breyner, 4.º conde de Mafra ..., vol. I: 1869-1880
Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1930,
págs.318-322.

 

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